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Livro de artista – brevíssima história

07/09/2009
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26d

O ano de 1962 é considerado o ano do advento dos livros de artista, graças à publicação, nos Estados Unidos e na Europa, de 4 livros que modificaram a forma de se pensar os livros conhecidos até então.

Alguns trabalhos considerados precursores dos livros de artista são bons exemplos de design gráfico ou de livros ilustrados que não questionam o estatuto do livro. Podemos dizer que os livros de pintores não tem nenhuma ligação direta com o tipo de publicação surgida na década de 1960 e que veio a ser conhecida como livros de artista. Uma parte da confusão criada em torno deste nome deve-se ao uso do termo em francês livres d´artiste, em uso desde o início do século XX para se referir a edições de luxo ilustradas por artistas (pintores e escultores). O termo em inglês apareceu pela primeira vez impresso quase uma década depois dos primeiros livros entrarem em circulação.

Muita gente considera isoladamente o livro Twentysix gasoline Stations, de Ed Ruscha, como o pioneiro, devido à grande repercussão que teve. Era um livro ordinário – o papel era comum, as fotos em preto e branco não eram artísticas, não havia um texto de apresentação, apenas legendas que identificavam um assunto que não era nem um pouco artístico: a localização dos 26 postos de gasolina do título. O que chama a atenção é que não é um livro de fotografias, apesar das fotos terem sido realizadas especificamente para este livro. Não é um livro de um fotógrafo, porque Ruscha é um pintor. É um livro em que a fotografia é utilizada para fazer algo coerente – um livro. A primeira edição, de 400 exemplares, era numerada e assinada, como as edições de luxo, mas o livro era comercializado por U$ 3.00. Depois o artista em um depoimento disse que considera um erro seguir essa tradição de tiragens assinadas, que remete a edições de gravura e aos livros de luxo, e fez mais duas edições do livro, uma de 500 cópias em 1967 e outra de 3000 cópias em 1969, sem numeração e sem assinatura. É um livro só de imagens, sem texto.

spoerri

O romeno Daniel Spoerri, na ocasião de uma exposição de suas esculturas, conseguiu convencer a galeria a publicar em uma tiragem de mil exemplares um livro que foi enviado pelo correio no lugar do convite. O livro, chamado de Topografia Anedotada do Acaso, é uma espécie de inventário que descreve objetivamente e metodicamente os 80 objetos que estavam na mesa de trabalho do artista, em seu quarto de hotel em Paris. Não é um livro de memórias, nem um diário ou um manifesto, e também não é um catálogo, pois não reproduz nenhuma obra. É um livro só de texto, sem imagens, em que o artista faz comentários de caráter pessoal a respeito dos objetos, a memória que cada um deles evoca. Quatro anos depois, a editora Something Else Press publica nos Estados Unidos uma edição ampliada, com comentários de Robert Filiou e do tradutor, Emmet Williams. Existem mais duas edições: uma feita na Alemanha em 1968, com comentários de Dieter Roth, e outra publicada na Inglaterra, em 1995, em que Spoerri comenta os comentários das edições anteriores. É uma obra em progresso, cresce e se transforma, como a vida.

roth_daily

Entre 1961 e 1962, o suíço Dieter Roth publicou diversos pequenos livros (entre 2 e 4 cm) feitos de jornais recortados. Um destes livros, editado na Bélgica, Dagblegt Bull, era escrito em islandês (o artista morava na Islândia). As páginas de jornal eram empilhadas e coladas, formando um bloco que depois era recortado. Com estes fragmentos impressos, o artista coloca em evidência o processo, a partir do seu interesse pela indústria gráfica e as possibilidades de distribuição, e o uso crítico ou mesmo político destas possibilidades. Seu objetivo era transformar um instrumento de alienação (os jornais populares) em instrumento de conscientização (os livros), que se tornasse um espaço de liberdade, imune aos efeitos da comunicação de massas, aos estereótipos e à padronização do pensamento. O livro não é um fim em si mesmo, mas um meio.

 ben dieu art total

O livro de Ben Vautier, chamado Eu, Ben Assino, teve uma tiragem de 100 exemplares. No colofão, lia-se “NÃO numerado” e “NÃO assinado”, acentuando o fato que o número limitado de cópias não era um fim em si mesmo, mas resultado de restrições impostas pelo modo como o livro foi feito e, sem dúvida, uma realista avaliação dos potenciais leitores. Um livro modesto, despretensioso, um instrumento de propaganda da idéia de “arte total”. A capa da primeira edição foi feita com um papel amarelado usado para embalar batata frita, e os textos (declarações, manifestos, projetos, fragmentos autobiográficos, etc) foram impressos em papel manilha, o tipo de papel usado por açougueiros para embalar carne; objetos reais foram colados neles (um disco compacto, uma gilete, um saco de papel, rótulo de vinho, cartão postal, etc). O que ele demonstra? Não existe separação entre a criação visual e a reflexão teórica para os artistas que, como Ben, eram ligados ao grupo Fluxus. O livro é um espaço para as idéias e para as coisas, para reflexões e vestígios de ações.

 (texto a partir da introdução ao catálogo Looking, telling, thinking, collecting, de Anne Moeglin-Delcroix, Liliana Dematteis, Giorgio Maffei e Annalisa Rimmaudo, 2004)

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2 Comentários leave one →
  1. 14/09/2009 1:23

    Muito bom

  2. sabata permalink
    05/04/2011 17:36

    adooooooooooooooooooooooooooorei wiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii .-.

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